Etc&Tal – Sérgio Portari – 27/06/1999

Alguém aí se lembra da velha fábula do velho, o menino e o burro?
A história é uma gracinha e, apesar de escrita há centenas de anos, espelha perfeitamnte a realidade atual. Diz-se que certo velhinho tinha um burrinho no quintal de sua pequena propriedade rural. Mas, premido pelas secas e pela cruel política agrária de seu País, necessitou passar o animalzinho nos cobres para cobrir as despesas de manutenção de seu lar.
Para vender o burrinho, o pobre velho, muito triste, dirigiu-se à cidade. E convidou seu neto, menino de uns oito anos, para ir consigo. Talvez a conversa do garoto amenizasse a dor pela separação do amiguinho de tantos anos, que tantos serviços prestara a seu dono.
No caminho, ambos – o velho e o menino – caminhavam, enquanto puxavam o muar por uma corda. Ao passarem por um vilarejo, logo escutaram críticas:
— Mas, que bobagem! Duas pessoas caminhando e o burro na maior folga.
O velhinho resolveu então, colocar o garoto no lombo do burro.
Não passou muito tempo e… em outro local, alguém tratou de criticar:
— Que moleque mais descarado. Vai folgadamente montado no animal, enquanto o velhinho, já arquejado pelo tempo, caminha se esfalfando.
Com a insatisfação do público, o velhinho subiu no burro e ao menino coube a tarefa de puxar o bichinho pelas rédeas. E você pensa que as pessoas ficaram contentes? Nada disso. Mais um pouco de caminhada e já se ouviu o desabafo indignado.
— Que velho folgado. Vai muito do tranquilo, montado no burro e o pobre menininho caminha como se fosse um pobre mendigo.
Já quase sem saber o que fazer, o velho chamou o garoto para ir na garupa. E seguiram os dois pelo caminho a fora. O velhinho com as rédeas nas mãos e o menino segurando-o pela cintura.
Quando pensou que o caso estava resolvido… outra decepção… Logo adiante, um homem do povo gritou:
— Vocês não têm dó do pobre burrinho? Dois marmanjões desses vão acabar matando o pobre animal.
Dois minutos depois estava tudo como começou. O garoto e o velhinho caminhando, enquanto o burrinho era puxado pelas rédeas.
Como diz meu amigo professor Evaldo Severo… moral da história:
Por mais que você faça, nunca… jamais conseguirá agradar a todos. Tente, portanto, agradar a maior parte das pessoas e não se importe com a unanimidade.
E esse recado vale para os prefeitos da região. Para que tenham certeza de que, sempre, via de regra, vão existir pessoas prontas para criticá-los. Se falta água, a culpa é do prefeito; se ele consegue trazer mais água, agora falta esgoto. Se trabalha em silêncio é omisso, se esconde do povo; se anuncia seus feitos é porque gosta de aparecer, de fazer festa.
A minha moral da história é de que a 189 dias do ano 2000 a humanidade pouco mudou: acha muito mais confortável criticar do que fazer um gesto de apoio. É um fato concreto e nossos políticos têm que se conformar com ele.

*Publicado no Jornal Pontal do Triângulo em 27/06/1999

Sérgio Portari era jornalista em Frutal, onde viveu da década de 1980 até 28/04/2000, data de sua morte. Pai do jornalista Rodrigo Portari e do professor Sérgio Portari Jr., assinava semanalmente uma coluna no Jornal Pontal do Triângulo intitulada “Etc&Tal”. O Blog do Portari, aos domingos, republicará algumas de suas colunas para relembrar aos velhos amigos a paixão de Sérgio pela escrita e, para quem não o conheceu, passar a conhecer um pouco mais do passado da imprensa frutalense.

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