Jornalista…

Para começar esta sexta, reproduzo um texto do Observatório da Imprensa que muito me chama a atenção, em especial as partes que deixei em negrito. Acho que diz muito sobre a minha profissão, especialmente para aqueles que rotulam jornalistas como ‘causadores de confusão’ ou ‘caçadores de briga’ (e olha que tem muita gente que fala isso e que é muito esclarecida). Vale a pena ler.

As Funções do Jornalista

Por Fernando Kelysson

As funções que competem ao jornalista vão além do que meramente informar. Não é preciso ser jornalista para ser informante, uma vez que tudo que atinge os nossos sentidos é informação. O informante é, sim, a fonte do jornalista. A priori, o que confere status social a um jornalista é o fato de ele utilizar as mídias de massa (jornais, revistas, TV, rádio) em seu ofício e assim ter visibilidade. A primeira função de um jornalista é transformar informação em notícia, o que implica organizar o grande volume de dados por meio de diversos processos: classificar, priorizar, hierarquizar, incluir, excluir, adaptar, expor etc. Esses processos são tecnicamente chamados de edição.

O trabalho de um jornalista também consiste na transliteração: adequação de linguagem. O jornalista traduz termos técnicos e assuntos complexos em notícia simples para que o leitor leigo possa compreender do que se trata. O jornalista faz uma espécie de mediação, por exemplo, entre um economista que trabalha com câmbio e uma dona de casa que vai ao supermercado comprar víveres. O economista falará de taxa Selic, ações no mercado de capitais e a dona de casa dificilmente compreenderá isso. Então surge a função benfazeja do jornalista para explicar-lhe de que modo esses fatores vão interferir na realidade de seu cotidiano, ou seja, se vai contribuir para a abertura de novos postos de emprego ou se isso vai aumentar ou diminuir os preços nas prateleiras.

Outra função do jornalista é contextualizar essas informações para seu público e ainda refletir com ele suas implicações. Há uma grande diferença entre o jornalista que informa, por exemplo, “Dilma foi eleita presidente da República” e o que procura refletir o que isso significa para nosso país. Há no jornalismo um engajamento que prima por promover bens noticiosos de utilidade pública e isso vai além de informar: consiste em comparar, alertar, prevenir, explicar etc.

O jornalista é um pessimista

Há ainda outra função, e que considero uma das mais importantes e árduas exercidas pelo jornalista: a função crítica. Essa está visceralmente ligada à democracia e tem como condição sine qua non a liberdade de imprensa – embargada durante os negros anos da ditadura militar. Um dos mais experientes professores que tive na academia me disse que os melhores jornalistas que ele conheceu eram anárquicos, contraculturais, revolucionários. Na verdade, a contestação e o questionamento são inerentes ao bom jornalista. É por isso que essa profissão é antipatizada pelas autoridades ou por aqueles que estão no poder. É por isso que a primeira providência em uma ditadura é a censura – calar a imprensa. O bom jornalista pouco concorda, muito questiona.

Fazer jornalismo é procurar os problemas e apontá-los com a boa intenção de quem está procurando melhorias constantes para a população, e não buscando forjar uma manchete venal. O jornalismo é uma profissão desapaixonada, despida de ilusões e otimismos baratos, o jornalista é um pessimista e os principais critérios de noticiabilidade são os desvios, as rupturas, os problemas, a alteração da ordem. É a máxima que aprendemos: um cão morder um homem não é notícia, um homem morder um cão é notícia. O que está bem e normal é digno de pouca nota. O fato de um avião chegar ordinariamente ao seu destino não é digno de notícia, mas se ele cair, aí sim, haverá frenesi nas redações, nas bancas e no Ibope.

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