Já ouviu falar da Maria Coberta em Frutal?

Para quem não conhece essa lendária figura da cidade, o perfil dela traçado no Jornal Pontal no ano de 1992, na ocasião de sua morte, aos 95 anos.

Quem foi Maria Coberta?

Maria Coberta, coberta de flores. Muitas margaridas simples, muitas flores de quintal e até dois buquês. Esta foi a última imagem que os frutalense tiveram daquela mulher idosa que andava pela rua, ora distribuindo bênçãos de Deus, ora mandando para o inferno os moleques reais e imaginários que a importunavam. Diz a escritora Magnólia Rosa, autora de uma crônica sobre ela, que seu nome era Maria Menezes de Jesus. E que seu velório estava “assim” de gente. Agora, Maria Coberta certamente continuará a viver por muitas gerações na cabeça das crianças. “Dorme, menino, senão a Maria Coberta vem te pegar”.

Maria Coberta, que toda a vida não teve nada e ainda perdia ou tinha roubadas as roupas que ganhava (e insistia em carregar numa sacolinha), acabou enterrada em tumba de “gente rica”, como comentaram os populares que acompanharam o seu corpo até o cemitério. O túmulo foi cedido pela empresária Amanda Alves da Silveira, que se compadeceu das dificuldades burocráticas para liberar um outro túmulo oferecido por um rapaz.

Ela morreu quinta-feira passada, por volta das três da manhã. Tinha entrado no Hospital São Francisco de Assis logo depois da meia-noite, com fortes dores no peito e na cabeça. Tinha sido admitida no Asilo Pio XII na tarde anterior, a seu próprio pedido.

Sua idade foi calculada em 95 anos por uma sobrinha que compareceu ao velório, no entanto, até poucos meses atrás, embora não enxergasse bem, era dona de uma força descomunal, sentida quando se agarrava nos braços das pessoas para dar um safanão, ou para um simples cumprimento.

Venina Martins da Silva, de 70 anos, a conhecia e cuidava há mais de cinquenta anos. Outra velha amiga era d. Percília Viana Almeida, de 68 anos, conhecida como d. Tôca Costureira. Maria Coberta morou quatro anos e quatro meses com d. Tôca, até que esta adoeceu. Então, se mudou para o Hotel Líder, onde d. Venina zelava por suas roupas e alimentação.

Vendido o hotel, Maria Coberta passou a dormir nos alpendres e em uma ou outra casa de pessoas caridosas. “Eu a conhecia quando tinha meus treze anos, numa visita a Aparecida de Minas, onde ela morava. Naquela época já era viúva, tinha mais de 20 anos e era fraca da ideia. Muito trabalhadeira, ajudava socar arroz nas casas, lavava roupa e fazia outras coisas, sempre co muito capricho. Mas tinha as suas crises, em que ficava muito violenta. Andava com uma coberta porque dizia que sentia muito frio nas costas”, conta d. Tôca.

Incêndio

A história conhecida por Veninia é de que Maria ficou louca quando perdeu seu único filho num incêndio. Casada com um homem chamado Joaquim, que já tinha um filho, Maria pôs as crianças para dormir e foi lavar roupa no córrego. Algum tempo depois, o garoto mais velho veio correndo avisar que o ranchinho de palha estava pegando fogo.

Não houve como salvar seu filho. Venina acredita que o marido dela também enlouqueceu, pois segundo consta, ele morreu no Capão da Onça, lugar próximo a Uberaba, para onde eram enviados os deficientes mentais da época. Como Venina a chamava de “madrinha”, sempre perguntava se o “padrinho Joaquim” tinha ido procura-la.

Apesar das pessoas que abusavam, principalmente moleques, muita gente ajudava Maria Coberta, dando alimento, roupas e abrigo em alguns casos até mesmo escondido, contra a vontade dos familiares. Mas cuidar dela não era coisa fácil, era preciso ter muito jeito e muita paciência. “Não era todo dia que ela aceitava favores. Por isso, digo que fiz o que pude, o que ela deixou que fizesse, mas fiz com muito amor”, conta Venina.

Só para se ter uma ideia da personalidade desta figura tão vista e tão desconhecida, basta dizer que às vezes ela comia crua alguma carne que ganhava, alegando que não queria dar trabalho. Era preciso muita insistência até que ela consentisse no cozimento. Outro detalhe é que ela conversava durante todo o sono, sempre falando de seu filho e do incêndio. D. Venina, que sofre de insônia, acompanhou muitas destas noites conturbadas.

Apelido

Pouca gente sabe do nome desta mulher que pertence à história (ou folclore) de Frutal. Mas a forma como surgiu seu apelido está viva na memória de d. Veninia, que conta: “Meu pai tinha uma pensão em Aparecida de Minas. Uma noite ela apareceu por lá, ainda era jovem, e pediu um quarto. Na portaria, deu apenas o nome de Maria. De madrugada, ela foi embora, levando o cobertor. Como ela era meio desconhecida, papai escreveu na frente do seu nome a palavra “coberta”. E toda vez que se referia à fujona, era como a “Maria Coberta”. Ficou o apelido e ela andou muitos anos com o cobertor nos ombros, até que suas ideias debilitaram mais ainda e foi uma sucessão de ganhar e perder cobertores”. Tôca diz que de princípio ela reagia com violência ao apelido, mas há algum tempo em entrevista que deu ao radialista Osmar Silva, disse que não se incomodava mais e justificou, com singeleza: “coberta é uma coisa tão boa, acaba com o frio da gene”.

Agonia

Venina afirma que Maria Coberta ficou muito abalada há cerca de três meses, quando alguns moleques a assustaram com um sapo de borracha. “Eu a ouvi gritando perto de da minha casa, pedindo socorro. Fui ver, ela estava encolhida num alpendre, tremendo muito, de medo do sapo que os meninos ameaçavam de lhe jogar. Pedi para eles não fazerem aquilo, que era só uma pobre mulher. Mas três dias depois eu soube que mais de meia dúzia de meninos tinha se divertido jogando o sapo nela, numa outra rua. Acredito que o medo foi uma carga emocional muito grande. Desde então ficou fisicamente fraca, quieta, quase não saia de casa”, lembra.

Nos últimos dias ela se alimentava muito mal e tinha dificuldades até para andar. Tânia Ferreira da Silva, que enviou uma carta ao Pontal poucos dias antes de sua morte (publicada na edição passada) conta que ela mal conseguia subir, mesmo ajudada, para a calçada, e se apoiava nas paredes para mudar os passos. Uma noite, ela pediu a um rapaz que a levasse até a casa de d. Venina de carro. Na sua cama de costume, passou a noite gemendo.

De manhã, pediu ajuda para “lavar a boca” e tomar um banho, coisa que em circunstâncias normais era um sacrifício para se conseguir dela. Depois, deitada, clamou de um cansaço muito grande, mas comeu todo o almoço. E pediu para ser levada para o Asilo. “Perguntei a ela para quê isso, se não precisava, mas ela disse que estava me dando muito trabalho e insistiu várias vezes. Meu marido também me incentivou para que eu a levasse, já que ela se mostrava muito quieta e estava pedindo. Então, de tarde eu conversei com a irmã que cuida do asilo e a levei. A noite, ela morreu”, resume d. Venina.

Ela era praticamente a única pessoa em quem Maria Coberta confiava totalmente. Até quando se machucou seriamente num arame, Venina foi a única pessoa a poder se aproximar e fazer um curativo em seu braço, sendo chamada às pressas pois morava longe do local onde ela estava.

Apesar de ter criado 24 filhos, depois de também ter perdido o único a que dera a luz, nunca faltou a d. Venina o carinho, a paciência e o tempo necessários a dar um pouco de si a uma criatura fora da realidade como Maria coberta. “Quando ela estava em crise e eu tentava me aproximar, ela me pedia para ficar longe, dizendo que  eu não merecia ouvir as coisas que ela estava falando; geralmente muitos palavrões, como a cidade toda sabe que saíam de sua boca para responder provocações. Desde que ela ficou doente, há três meses, que vinha dormir aqui todas as noites”, conta.

Tanto d. Tôca quanto d. Venina disseram que sentem muita saudade de Maria Coberta e se emocionaram ao falar sobre ela. “Já fazia parte da família e quando eu ficava sem vê-la por um dia que fosse, sentia falta. Agora ela não vem mais”, diz Tôca. “Ainda penso que ela está chegando, quando alguém abre o portão. Depois lembro que ela não vem mais”, conclui d. Venina.

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rdportari

Jornalista, professor universitário, Dr. em Comunicação

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