Escritor de Brasília lança livro selecionado entre mais de 300 obras


Canções de amor em língua morta está em pré-venda até 10 de dezembro. Obra de Alexandre de Paula reúne poemas escritos ao longos dos últimos dez anos

Radicado em Brasília, o escritor e jornalista Alexandre de Paula lança o primeiro livro, Canções de amor em língua morta. O volume de poemas foi escrito ao longo de dez anos. A obra foi selecionada em uma disputada seleção da editora paulista Urutau que recebeu mais de 300 inscrições de autores do centro-oeste.

A pré-venda está disponível para os leitores até 10 de dezembro pelo link (https://benfeitoria.com/cancoes) e inclui a possibilidade de comprar, além do livro, cartaz exclusivo, autógrafo e acesso a outros títulos da editora.

“Escrevo poemas desde a adolescência, mas Canções representa uma fase mais madura, com maior consciência do fazer poético. É um trabalho também sobre a guerra da linguagem e das impossibilidades dela”, diz Alexandre.

“A língua morta do título são várias: a poesia, o próprio amor e a capacidade de comunicação em tempos de grunhidos…”

Mineiro de Frutal, Alexandre recebeu prêmios da Fliporto e do Festival de Sonetos da Academia Jacarehyense de Letras, ainda na adolescência. Em Brasília há 11 anos, formou-se em jornalismo na UnB, passou pela redação do Correio Braziliense, onde foi cronista, repórter de cultura, de política e subeditor.

Atualmente, é editor-chefe do Portal R7. Venceu o prêmio República da Associação Nacional dos Procuradores da República do Ministério Público Federal; foi finalista do CNT e do Vladimir Herzog.

“Embora a experiência como jornalista impacte na minha maneira de ver o mundo e, consequentemente, no que produzo, a poesia é uma linguagem completamente diferente”, diz Alexandre.

“Não há, no livro, qualquer compromisso com a realidade estrita, embora ela apareça, como movimento político e de reconstrução, em alguns dos versos. A poesia propõe uma visão sobre a qual o factual, geralmente, coloca uma neblina.”

A orelha do livro é assinada pelo poeta, jornalista e advogado Lausamar Humberto, conterrâneo de Alexandre. “Há no livro, ainda que tímida, uma crença sincera no amor. Na amada presente, que não se entrega aos fracassos, que não se curva à dor. Não há palavras sem alma. E há ainda o amor pelas coisas inúteis, pelas coisas não percebidas. Não há remorso, não há saudade, é a vida inscrita nos ossos”, escreve Lausamar.

Leia dois poemas de Canções de amor em língua morta:

brasília

quando cheguei a brasília,
não encontrei nicolas behr
pra mim, a cidade era feia e fedia
e eu caminhava entre túneis
de crack e de solidão.
quando cheguei a brasília
não tinha ainda nascido
poeta perdido e parido
no mofo de uma alma de antes.
quando cheguei a brasília,
não entendia que o humano
transcende o concreto e é duro
saber que eu nem sequer compreendia
que o sol deságua em taguatinga
e só vira mar no céu febril de ceilândia.
quando cheguei a brasília,
a cidade já era pra mim
inventada por outros olhos
explodida em outros filmes
rasurada em outros livros.
quando eu cheguei a brasília,
a cidade sozinha me reinventou

poema brega

havia algo além do corpo
e era um algo que caminhava nu
às três da tarde de terça-feira
na porta
do setor bancário e no meio dos ministérios
mesmo os ministérios todos fechados
cheios de ar-condicionado

(naquela época,
eu sabia o plural
de ar-condicionado.
você me esqueceu
todo plural.)

você era o meu algo. meu carro de som
de telemensagens na porta do trabalho
meu cd do amado batista riscado
num dia quase sem horário

você era, sim, um algo
e era um algo estranho no ar
sem ar da seca de brasília
e eu gostava
porque me fazia gostar
de secas de brasília, de esplanada
dos ministérios (mesmo os ministérios
todos fechados)
e de cds do amado batista

mas você foi embora
e o carro de som de telemensagens
no entanto
continua tocando.

Leia a orelha do livro:

Este livro é composto de poemas em alta voltagem. Mesmo que de início pareçam sóbrios, mansos, singelos até, há neles uma energia capaz de abalar crenças, destruir convicções, desnudar todas nossas fragilidades. A dura, a excessiva realidade cotidiana, ceifadora de sonhos infantis.
O entendimento – melhor, não o entendimento, mas a vivência do mundo – evidencia a impossibilidade da compreensão total do outro e a inviabilidade da exposição total de si. E então os desgastes nas relações, e as dores daí nascidas.
Os poemas estão repletos de certeiras, sofisticadas e sensíveis imagens poéticas. Que não são discricionárias, surgem essenciais para que a percepção do íntimo se dê. E há também as palavras duras, de pedra, necessárias para a exposição das aflições que envolvem o ser, como treva, como sombra, imunes à luz.
O poeta sabe que o absurdo está em nós. Mas que só sofrer não dará luz aos versos. Não adianta chorar. Conhecer o mundo não significa compreendê-lo. A vida é turva. E o mundo é feito de neblinas e sombras, tendo quase sempre, como fonte única de iluminação, a luz dos olhos de alguém.
Há no livro, ainda que tímida, uma crença sincera no amor. Na amada presente, que não se entrega aos fracassos, que não se curva à dor. Não há palavras sem alma. A amada é uma interlocutora em silêncio. Sobre ela se diz, por ela se sofre, se ergue. E sua figura é a imensa presença por toda a poesia surgida. E há ainda o amor pelas coisas inúteis, pelas coisas não percebidas. Não há remorso, não há saudade, é a vida inscrita nos ossos.
Talvez alguns poemas não serão compreendidos na primeira leitura. Mas causarão impacto na primeira leitura. E serão belos na primeira leitura. E convidarão para o aprofundamento, para o pulo no abismo. A fuga da vida é impossível. Não se pode fugir dos labirintos.
Alexandre crê que não há sacralidade alguma nos sentimentos. Todos podem ser crus, desnudos, expostos. E os poemas escavarão corpos, romperão carótidas, cortarão pulsos. A vida não é só a vivida. É a questionada. É a possibilidade que não se deu, ou que foi covardemente recusada. Há uma variedade de vidas que se tornam concretas em versos etéreos, pesados como chumbo.
Adentrar o universo poético de Canções de amor em língua morta é encontrar o estranho e fulgurante qualificar das coisas e das circunstâncias (a incoerência das manhãs, o obtuso sabor das flores, o amarelo intenso de um lá maior). E saber que nem tudo pode ser dito. Há o que existe e é maior que a linguagem.
Lausamar Humberto, poeta

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