Crônica de uma noite qualquer

É tudo nas pontas dos dedos. Antigamente era na ponta da língua que se achava as principais respostas para os grandes mistérios da vida: a raiz quadrada, as siglas dos Estados e a fórmula da água. Hoje, é tudo na ponta dos dedos. E viva o Deus Google que nos auxilia, para todo o sempre e amém. 

Aqui, mais uma vez, apreciando uma noite qualquer, observo meus filhos se divertirem com as pesquisas no Deus virtual, enquanto eu, antigamente, me empoeirava em enciclopédias sem fim em busca de informações simples. Ah, e se quiser ouvir música, saber das fofocas alheias ou então escrever um texto, como esse, tá tudo na ponta dos dedos.

Até o editor de textos saltou da máquina de escrever barulhenta para teclas virtuais em uma tela plana sensível ao toque. E aqui estou, fazendo de conta que estou maravilhado com invenções que vi nascerem no mundo e das quais me apropriei sem medo nenhum. 

Não estou dizendo que essas invenções são ruins. Pelo contrário. Amo todas elas. Mas, que dá uma raiva achar qualquer informação, à velocidade da luz… isso dá.

Por outro lado, me cansa o fetiche de querer saber da vida alheia. Zuckerberg entendeu isso bem antes da gente e fatura seus milhões nas redes sociais. De stories em stories, uns ganham trocados, outros perdem o tempo.

De toque em toque, de pedaços de mim deixados nas digitais da tela do celular, vou dando umas coladas e pensando nessa tecnologia que vi nascer e não se se verei morrer. Só espero que não nos tornemos seres como aqueles humanos do Wall-E, que de tanto vidrar na tela e nas facilidades do toque, terminam presos em esteiras flutuantes enquanto os robôs fazem o resto (que meu corretor insiste em trocar para “texto”). 

E que as palavras, virtuais, me ajudem a compreender melhor passo a passo dessa vida digital na qual todos estamos. Coisas da vida. Coisas do mundo. Coisas da tecnologia. 

Rodrigo Portari é jornalista, doutor em Comunicação, professor na UEMG-Frutal e membro da Academia Frutalense de Letras (AFL)

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