A chegada da rádio em Frutal – Parte I (A idealização)

Solenidade de inauguração da rádio AM, em abril de 1963
Solenidade de inauguração da rádio AM, em abril de 1963

Começo hoje a divulgação de uma das pesquisas que tive o prazer de orientar como professor da UEMG em Frutal: a história da implantação da rádio em Frutal, mais especificamente da Rádio Frutal AM, idealizada pelo saudoso José Buzolo. O texto que será apresentado aqui trata-se de uma compilação do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da querida amiga e excelente profissional, Zilma de Oliveira (hoje assessora de imprensa do Hospital Frei Gabriel), produzido junto ao curso de Jornalismo da UEMG, do qual ela fez parte da primeira turma de formandos.

O trabalho completo pode ser acessado na Biblioteca da UEMG, inclusive, com um áudio de uma entrevista de Zilma com José Buzolo pouco antes de seu falecimento. O registro histórico tem um valor imensurável para Frutal e para aqueles que gostam de conhecer um pouco mais da história dessa terra. Essa compilação tem três partes e foi apresentada por mim no I Congresso Mundial de Comunicação Ibero-Americana (Confibercom) e, portanto, para além de Frutal e da UEMG, a história de Buzolo e da Rádio Frutal AM hoje integra o banco de dados mundial sobre História da Mídia. Espero que apreciem a leitura!

Introdução: A idealização de uma Rádio AM em Frutal

O idealismo de se fundar um dia uma emissora de rádio AM, sem dúvida, deve ser creditado a um personagem que deixou registrado seu nome na história da radiofusão frutalense: José Buzolo. Filho de pais italianos, da cidade de Cicília, José Buzolo, morou por alguns anos em Uberaba e chegou em terras frutalenses na década de 50. Já veio formado em Ciências e Letras. Ele conta que já nasceu com o espírito de independência e que fez dessa personalidade o seu modo de ser e agir em toda a sua existência.

A Sociedade Rádio Frutal surgiu de uma sociedade que Buzolo fez com dois amigos que financiaram a idéia por 10 mil contos de réis. “Eu não tinha dinheiro, tinha antipatias. Nasci no meio delas por causa do ideal de fundar o rádio, tudo por causa da política. Enfrentei muitas barreiras, eles disseram que iriam me atrapalhar. Mas não me deixei abater e fui adiante”.

José Buzolo fundou a Sociedade Rádio Frutal em abril de 1963. Uma década, segundo ele, difícil, ainda mais pelo fato da cidade ser muito pequena e de costumes muitos atrasados. O idealizador conta que enfrentar a cúpula partidária foi um dos maiores desafios, que como define: “viviam à custa do mel da maldade. Havia uma alegria de frustrar uma idéia, frustrar um plano que era fundar o rádio. O mais impressionante é que eles não queriam o rádio porque o meio de comunicação traria o desenvolvimento”, denuncia.

Quando o assunto envolve a parte técnica, as dificuldades não eram menores. A energia era proveniente de uma usininha e a instalação era feita de emendas de fio. Havia dias em que a pequena população ficava até 12 horas no escuro.

Mas afinal, como o rádio entrou na vida deste italiano idealista? Tudo começou, segundo conta Buzolo, depois que o mesmo fez um curso de relojoalheiro em São Paulo, ministrado por uma escola da Suíça, com duração de mais de três anos. Buzolo, que morava em Frutal, viajava de 15 em 15 dias e depois de formado montou uma relojoaria que foi instalada na rua 13 de Maio, em frente ao bar do Alberto. Com o passar dos anos, o comerciante foi progredindo e entrou no que chama de “terreno das jóias”. A loja foi mantida durante 14 anos. Ao mesmo tempo em que tinha a empresa, Buzolo começou a investir no seu grande sonho: montar uma emissora de rádio e com o dinheiro que conseguia juntar comprava, aos poucos, os equipamentos.

Quando perguntado sobre o que o fez montar um rádio, a resposta é ligeira e surpreendente: “Aprende-se lendo, aprende-se ouvindo, aprende-se falando, ensina-se fazendo. Achei que Frutal tinha que ter um conceito mais respeitoso”.  

Antes da chegada do rádio, a comunidade frutalense era informada e ao mesmo tempo se divertia com o serviço de alto falante montado na praça Doutor Alcides de Paula Gomes, por uma pessoa que hoje leva o nome de rua: Antônio Rodrigues de Souza, um comerciante, dono de um bar onde hoje é o prédio da Caixa Econômica Federal, que também era um verdadeiro apaixonado por comunicação.

Os primeiros passos dados pelo comunicador José Buzolo datam do ano de 1962. Para isso, ele teve viajar algumas vezes para Belo Horizonte, onde encontrou com um padre com quem fez amizade e para quem perguntou que nome deveria dar à emissora que pretendia fundar em Frutal. A resposta do líder religioso – se foi inspiração ou não Buzolo não sabe dizer – mas foi acatada imediatamente. Eis o que disse o padre amigo: “Como chama a cidade onde você mora? Eu disse. Frutal. Ele me respondeu então: Rádio Frutal.”

O começo não foi fácil, admite Buzolo, que para abrir a Sociedade Rádio Frutal contou com as parcerias de sócios provisórios, um gerente de banco e do dono de um cartório, nomes mantidos em sigilo pelo fundador.  Em 1964, o frutalense começou a ouvir oficialmente o rádio, mas tudo que ia ao ar era controlado, até porque o país vivia em plena ditadura militar imposta pelo governo de Getúlio Vargas. Buzolo afirma que nesse período enfrentou muitas criticas e até humilhações de pessoas que não queriam ver o novo meio de comunicação ir adiante, especialmente a ala política. Haviam aqueles que diziam: “pobre coitado, tocando uma rádio, ele precisa de um emprego para sobreviver”. No entanto, a força de vontade deste italiano era maior e com garra, ele foi construindo caminhos, fez muitas amizades nos corredores das repartições públicas, definindo numa frase o que chamou de ideal: “Foi criando o radio que eu plantei a semente da confiança”. No ciclo de amizades que fez questão de lembrar, de personalidades influentes à época e que para o comunicador foram essenciais, estão de um político de Goiânia de nome José Humberto Rodrigues da Cunha, além também do Ministro das Comunicações à época, oficiais do Exército, entre outras personalidades que cruzaram o caminho de Buzolo para o bem da radiocomunicação frutalense.

O amor pelo fazia é notório nas frases que José Buzolo criou ao longo de 25 anos de dedicação à Sociedade Rádio Frutal e que fez questão de dizer durante a entrevista, quando perguntado sobre a importância da comunicação na vida das pessoas. “Quem estuda e faz jornalismo, se tiver duas pedras, pula o oceano de um lado para o outro”. “O destino é capricho e gosta muito de pessoas assim, eu não sou homem afetado, sou um homem atrevido”.

Além de um grande comunicador, Buzolo dedicou 40 anos de sua vida à tarefa de advogar. Carreira, que segundo ele, exerceu na base do grito e do conhecimento.

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