Fala, Portari: uma crônica

Nas encruzilhadas desse mundo virtual, daqueles momentos em que a distância física se limita a um clique do mouse, a uma fala no microfone ou a uma chamada em vídeo, eis que dois antigos amigos, daqueles que há mais de década não se encontram, “tropeçam” digitalmente um no outro em uma chamada de vídeo.

Um, mineiro daquele nascido e criado nessas terras. Outro paulista, do interior, mas paulista. Cada qual com suas preocupações e vidas, resolvem, por um acaso do destino, restabelecer um contato aproveitando que a pandemia os obriga a ficar em casa.
Diz o mineiro: – E aí, bão sô?E o paulista: – Olá, tudo bem? Por aqui estamos todos nós muito bem.

Mineiro: – E as novas? Tá sumido, uai! Saudade d’ocê!
Paulista: – Pois é, caro amigo. Aqui estamos também tentado sobreviver a toda essa situação. Espero que aí para os rincões de Minas Gerais tudo esteja caminhando melhor que as terras paulistas.

Nesse momento, eis que nosso dileto mineiro, com todo dicionário e dialeto próprio, exclama:
– Menino! Nem te conto! O trem aqui tá meio desandado, sô. Nem sei cumé que a gente tá conseguindo suportar tudisso.
No rosto do paulista, aquela típica expressão de quem, com muito esforço, tenta compreender a mensagem. Até que pergunta:
– Menino?
– É, uai. Menino, sô…
– Mano do céu. Agora não entendi nada! Cê tá ligado que o negócio aqui tá osso, manja?
O mineiro, agora, olhando para a tela fria do celular, tentando processar a informação, resolve então dar aquele típico sorriso e uma desculpa para colocar fim àquela prosa estranha:
– O cumpádi. Num me leva a mal não. É que eu tô cos mi no fogo e uma água pá pô pó ali. Depois nóis fala mais! Inté!
E tão rápido como aquele vídeo começou, ele se encerra.
Coisas que só a tecnologia hoje permite, né não?
Bom final de semana a todos.

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