Etc&Tal – Sem (qualquer tipo de) censura – 04/04/1998

*Texto publicado em 1998 por Sérgio Portari, no Jornal Pontal do Triângulo.

O princípio básico número zero do Projeto Editorial do Jornal Pontal, elaborado e aprovado pelo nosso Conselho Editorial em junho de 1990, é o de que neste País (e, por extensão, nesta cidade) pratica-se a liberdade de expressão, seja ela de idéias, ou visual – no caso as charges e fotografias.

Muitas, muitas e muitas vezes, como editores e diretores do PONTAL, discordamos de conceitos políticos, sociais, esportivos e pessoais estampados em nossas páginas, por nossos colaboradores. Mesmo assim, jamais (quem quiser pode consultá-los) intervimos nas colunas das pessoas que, com denôdo e paciência, colaboram na elaboração de cada edição semanal de nosso jornal.

Publicamos, nesta edição, uma correspondência do Comissariado de Menores de Frutal, com alusões a uma foto publicada na coluna “Alta Sociedade”, na edição de 28/03/98. A carta traz um forte teor de censura.

Esclarecemos que, em momento algum tivemos desatenção em nosso trabalho. Vimos a foto, sua legenda e seus conceitos antes de sua publicação. Discordamos deles, também. Mas, não somos censores de ninguém. E entendemos que muito menos o Comissariado de Menores de Frutal está investido de poder de censura.

Nossos distintos comissários devem entender que o jornal é o espelho da sociedade. Ele a retrata como ela se mostra. E o faz fielmente. Se hoje há um clima de tensão generalizada na Câmara Municipal, é nossa obrigação reproduí-lo fielmente. Se existe um processo contra o chefe do Executivo, não podemos nos omitir. Se o esporte tem esse ou aquele problema, vamos levantá-lo sempre. E a nossa sociedade não pode ficar à margem do jornal.

A foto em questão não foi feita entre quatro paredes. É um flagrante de um badalado evento social realizado recentemente em nossa cidade. Aconteceu. Foi um fato real e, portanto, retratado por uma repórter atenta e observadora. Se o censo estético de nossos solertes comissários foi ofendido – como acredito ter sido – também a nossa cidadania o foi.

Afinal, onde estavam as nossas autoridades no momento em que a festa acontecia? Quem nos garante que um ou os dois modelos da foto não fosse menor de idade? Talvez não fosse um caso de maior e melhor cuidado no exercício de sua atividade?

O jornal concorda em gênero, número e grau com quem esteja escandalizado. Nós também ficamos. A colunista também. Mas, o PONTAL sabe que é um produto diferenciado, vendido exatamente para pessoas (e famílias) de melhor poder aquisitivo, melhor nível social e cultural e, portanto, acostumadas a ver as coisas com maior liberalidade. Somos um jornal familiar e continuaremos a sê-lo. Mas, já publicamos fotos de artistas como Luma de Oliveira e Leila Lopes com os seios de fora, sem toda essa polêmica. E jamais perdemos um assinante por isso.

Concordamos com o direito de quem quiser discordar do teor da foto e da legenda. E lutamos até a morte por esse direito. Só não concordamos, não aceitamos e repudiamos é o caráter de “advertência” que quiseram imputar à correspondência do Comissariado. Afinal, ele é fruto da democracia e está tomando uma atitude própria da ditadura militar, do tempo negro da censura. E Estatuto nenhum dá o direito a ninguém de censurar o que quer que seja. Nosso leitor é consciente e sabe que tem o direito de fechar o seu exemplar do jornal e atirá-lo na cesta do lixo toda vez que discordar de seu teor. Por lutarmos para que o leitor continue com esse direito, também, buscamos, sempre uma postura equilibrada, em nosso cotidiano. Se, eventualmente, acontecem fatos como aquele retratado pela coluna, discordamos, mas não podemos nos omitir. Porque, censura, jamais.

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