Perfil: Terezinha Lomounier: A história ganha corpo

Por Vitor Hugo Girotto*

Terezinha Lamounier Ferreira, professora aposentada, andou devagar após responder ao segundo toque da campainha, formando um vulto embaçado na porta de vidro de sua casa. Me recebeu um pouco confusa com a visita inesperada. Escritora de um dos únicos livros que relatam a história da cidade de Frutal, no interior do Triângulo Mineiro, fala humildemente que não tem muito o que dizer, quando ali na sua porta peço que me conte sua história numa entrevista. Sou recebido dentro da casa por dois cachorros em um cômodo ao ar livre e uma mesa na varanda.

Peço para que me conte sobre sua vida pessoal da forma como quisesse e se lembrasse. Dona Terezinha começa a falar despertando as memórias devagar. Nasceu em Dores do Indaiá, cidadezinha do interior de Minas, filha de Levindo Lamounier do Nascimento e Ana Moura do Nascimento, ambos fazendeiros. Aos 19 se mudou para Frutal onde começou a lecionar curso primário na escola Gomes da Silva, primeiramente, e em diversas outras da cidade.

Ao surgir a necessidade de um diploma para continuar a carreira, fez faculdade de Letras em Riberão Preto. Sua memória falha ao relembrar onde fez o curso de Pedagogia, “deixa um espaçozinho aí que depois eu me lembro”. Na Faculdade de Educação de Monte Aprazível, descubro posteriormente.

Junto com Ubirajara Ferreira, primeiro marido, administrava um hotel ao lado de sua casa, onde hoje funciona um estacionamento, até vender e se dedicar apenas ao magistério. Ficou viúva e se casou outra vez com o atual marido, Lineu Macedo. Nunca teve filhos.

Após os cursos, fechou o hotel e voltou a trabalhar nas escolas da cidade dando aulas de língua portuguesa e artes para o primeiro e segundo grau, somando mais de 40 anos de carreira.

“Meu livro eu comecei brincando”

Quero saber sobre o trabalho de elaboração dos livros. Então Dona Terezinha conta como surgiu a ideia: Iniciou a escrita de biografias sobre figuras da cidade com quem convivia e admirava, seus amigos e pessoas que fizeram parte da construção histórica da cidade. “Meu livro eu comecei brincando. Tinha uns amigos na cidade e comecei a escrever, mesmo para homenageá-los, talvez, a história deles”. Depois de quatro ou cinco textos prontos, chegou à conclusão de que convinha escrever um livro.

Os dois primeiros são compostos pelas diversas biografias escritas pela professora, enquanto o terceiro se tornou um trabalho de pesquisa sobre a história de Frutal, de como foi fundada e descrições sobre características construídas desde o começo de sua formação.

Foi utilizando de notas sobre Frutal encontradas nos antigos jornais de um grande amigo, Ernesto Plastino, dono do primeiro jornal humorístico da cidade: “O Facão”, que pesquisou e coletou informações para a construção do último relato histórico.

Ainda modesta sobre o trabalho me diz: “Não são livros assim… digamos bons como deviam ser, por que Frutal não guardou arquivo”.

“Por que tudo na vida tem uma história”

Neste momento uma das mulheres que ajudam a cuidar e fazer companhia chega e nos cumprimenta. Dona Terezinha pede para que ela entre e traga dois livros para mim. Pergunto sobre as fotos nas capas e ela me explica, são o coreto da praça da matriz e a primeira caixa d’água da cidade, ambos demolidos.

“A senhora sente falta de a cidade ir atrás do patrimônio histórico?”. É minha última pergunta. “Não… como faz falta!” expressa ela encarando o descaso da cidade com seu patrimônio “Por que tudo na vida tem uma história. Como é que surgiu, nasceu, né? Como está hoje?”.

Me despeço e peço os livros emprestados. Saio da casa com dois presentes.

*Discente do 3º Período de Jornalismo da UEMG

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rodrigoportari

Jornalista, professor universitário, Dr. em Comunicação.

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